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http://jornal.publico.clix.pt/default.asp?url=/main.asp%3Fdt%3D20090417%26page%3D12%26c%3DCPorto em Directo, a nova criação colectiva da Seiva Trupe, é um trabalho
de campo encenado por um forasteiro, o argentino Claudio Hochman
"Três pessoas podem fazer uma multidão e sete actores podem fazer uma cidade: é essa aparatosa conta de multiplicar que tem lugar em Porto em Directo, o espectáculo de café-teatro que a Seiva Trupe estreou ontem no Teatro do Campo Alegre. Claudio Hochman, um argentino que "não conhecia o Porto", controla as operações: "Conheci o Porto através destes actores. Trabalhámos com elementos do imaginário deles e também fizemos trabalho de campo, com muitas saídas à cidade", explicou ao P2.
Os sítios onde estiveram durante o processo de criação do espectáculo são os sítios aonde vamos agora em Porto em Directo: a Avenida dos Aliados pós-requalificação, o Jornal de Notícias, o "Triângulo das Bermudas Serralves-Casa da Música-São João, onde segundo alguns se esgota misteriosamente toda a actividade cultural da cidade", o Mercado do Bolhão, o liceu Carolina Michaëlis, a estátua de Almeida Garrett, o teatro municipal onde há "musicais de sexta a sábado com quatro récitas diárias" e as Quintas de Leitura do próprio Teatro do Campo Alegre, além do suposto estúdio de televisão onde decorre toda a acção da peça.
Há outros encontros imediatos com pessoas que tanto encontramos nas esquinas mais sujas da Baixa (a Zélia e o senhor que pede um euro emprestado, dois mendigos que fazem parte da mobília da cidade) como nas melhores partes da Foz (Eugénio de Andrade, Vasco Graça Moura, mas também Rosa Mota e Vítor Baía).
Ao todo, são 44 cenas - também é uma multidão - em que os actores contam esta história pelas suas próprias palavras. "Foi muito interessante conhecer o Porto através deles, perceber qual era a história que eles queriam contar. Foi uma opção arriscada, porque podia não ter acontecido nada, mas este processo tornou o espectáculo mais rico e fez com que os actores se apropriassem mais dos materiais, porque sentem que isto é completamente deles." Houve algumas regras: Porto em Directo tinha que ter números musicais e tinha que ser "sobretudo um divertimento", e por isso Claudio Hochman fez questão de que este olhar sobre a cidade não fosse politizado. "Como eu não vivo cá, sou um forasteiro, disse-lhes que não queria que falássemos de política. Claro que isto está cheio de crítica social, no sentido mais genérico do termo, mas não é um espectáculo partidário. Não me parecia adequado irmos por aí, interessava-me que trabalhássemos sobre aspectos mais essenciais da vida do Porto", diz".