Terça-feira, 21 de Abril de 2009
(publicado hoje no Diário de Aveiro)

"Terá Darwin morto Deus?" foi o nome escolhido por António M. de Frias Martins, da Universidade dos Açores, para a intervenção que hoje à noite vai fazer no Centro Cultural e de Congressos, no âmbito da "Biologia na Noite", que este ano tem como tema central Darwin.

Este título serve-me de pretexto para falar um pouco sobre uma das questões que tornam a figura de Darwin polémica e mediática: as relações da sua teoria com Deus.

Realmente se for feita uma análise linear e um pouco acrítica, dizer que os seres vivos evoluíram implica necessariamente aceitar a ideia que algo que evolui é porque não é perfeito. Evoluir segundo a definição do dicionário da Porto Editora significa, "passar por uma sucessão gradual de transformações; passar para uma situação melhor"

Assim sendo não há grandes dúvidas que a perfeição do responsável pela Criação era posta em causa e, se Deus não morria, era pelo menos ferido. Vale a pena saber como evolui a interpretação da visão humana sobre a obra de Deus (ou de quem poderá ter sido responsável por haver formas de vida).

Um dos primeiros pensadores cujas ideias sobrevieram até aos nossos dias foi Empédocles de Agrigentum (495 a.C a 435 a.C). Dizia este grego que a vida vegetal surgiu primeiro após a formação da Terra e que a animal "desabrochou" das plantas. As plantas não produziam animais inteiros, mas partes deles: braços, olhos, pernas, cabeças, de todo tipo de animais e até humanas.. Estas componentes individualizadas uniam-se e criavam criaturas extraordinárias e maravilhosas: centauros, monstros de duas cabeças e vários olhos, e todo o tipo de criaturas estranhas. Dizia Empédocles que as formas monstruosas que não conseguiam encontrar parceiros para se reproduzirem desapareciam rapidamente, extinguiam-se como hoje dizemos, sobrevivendo somente as formas cujas várias componentes do seu corpo funcionavam harmoniosamente.

É possível, entre uma barafunda de ideias estranhas, mitos e lendas da época, encontrarmos a ideia velada da noção que a evolução envolve a selecção natural, onde as formas mais adaptadas (as que tinham capacidade de se reproduzirem) é que sobreviriam.

Aristóteles (384 a.C a 322 a.C) citou Empédocles dizendo que ele foi o primeiro a dizer que as formas de vida melhor adaptadas poderiam ter aparecido por acaso e não por planificação (obviamente divina). Apesar dessa citação, a sua posição era claramente oposta. Foi Aristóteles que apresentou uma escada "evolutiva" em que ia das criaturas marinhas mais simples aos peixes, aos animais terrestres e no sentido ascendente, até à humanidade. "A natureza não faz nada sem um objectivo. Está sempre a esforçar-se para alcançar a maior beleza possível". Parecia assim aos filósofos da época que a humanidade se considerava como a perfeição divina, sendo o Homem a forma mais bela que a natureza poderia alcançar. Aí estava a obra de Deus!

A ironia é que na verdade, uma combinação das ideias de Empédocles sobre o acaso e a sobrevivência dos mais adaptados, em conjunto com a ideia de Aristóteles da evolução gradual, desde as formas mais simples de vida às formas mais complexas (embora não através de uma escada de perfeição crescente) é a base de uma versão exequível que consideramos ser a teoria de Darwin.

Nos séculos imediatamente posteriores ao nascimento de Cristo, algo notavelmente parecido com a moderna visão da evolução, mas baseada nas ideias veiculadas por Aristóteles e na noção da luta da natureza para alcançar a perfeição, foi aceite e ensinada por alguns dos pais fundadores da Igreja Cristã. Gregório de Nissa (331-396) ensinou que a criação era potencial: Deus provia a matéria das suas leis e propriedades fundamentais mas que os objectos e formas completas do Universo desenvolviam-se posteriormente ao seu próprio ritmo, do caos primordial. Santo Agostinho (353-430) foi ainda mais claro dizendo que os germes originais das coisas vivas surgiram em duas formas, uma colocada pelo Criador nos animais e plantas e uma segunda variedade espalhara-se através do meio ambiente, destinada a tornar-se activa apenas sob as condições adequadas. A sua interpretação do registo bíblico da criação não deveria ser interpretado literalmente como ocupando seis dias mas seis unidades de tempo. Santo Agostinho liga a Criação ao crescimento de uma árvore a partir da sua semente, a qual tem o potencial para se tornar uma árvore. Deus criou o potencial para os céus e a terra e para a vida mas, neste enquadramento os detalhes geravam-se a si mesmo de acordo por leis definidas por Deus (que não eram claramente do seu conhecimento). Não era necessário que Deus criasse individualmente cada espécie. Em vez disso o criador fornecia as sementes do Universo e da vida e deixava-as desenvolver ao seu próprio ritmo. Em todos os aspectos com excepção da mão de Deus para iniciar o Universo a teoria de Santo Agostinho era uma teoria de evolução.

São Tomás de Aquino (séc. XIII) aprova a ideia de que Deus pôs o Universo em movimento e depois foi descansar. Estas teorias foram aceites na Igreja até meados do século XVI. A partir desta altura a ideia de Criação Especial - a noção de cada forma de vida na terra foi individualmente criada por Deus e tem permanecido inalterável desde a sua Criação - tornou-se a sabedoria aceite pela Igreja cristã e foi o padrão da Igreja até meados do século XIX. Francisco Suarez (1548-1617) jesuíta espanhol cuja educação religiosa o tornou particularmente hostil aos ensinamentos muçulmanos, emerge como um dos fundadores deste interpretação da Criação Especial.

Não gostaria neste contexto de aprofundar esta questão, mas é importante lembrar que foram a partir de fontes muçulmanas que muitos textos clássicos gregos chegaram aos nossos dias, e que não é improvável que alguma mistura de ideias entre os textos clássicos e o pensamento muçulmano, pudesse ter tido influência no abandono da posição de Aquino.

Gostaria de referi a posição de Francis Bacon (1561-1626) que sustentava que tanto a Bíblia como a natureza eram obras de Deus e, portanto, o estudo da Natureza (obra de Deus) era tão importante quanto o estudo da Bíblia (palavra de Deus) para compreender Deus.

Poderei então concluir que Darwin não matou Deus, mas fez ressuscitar o Deus de Agostinho e Tomás.





Deus de tudo e do nada, se existes,
uno e trino, suprema omnisciência,
trabalhaste seis dias e resistes
impassível do céu, com paciência;

se em vez da criação numa semana
tivesses operado um mês a eito,
esculpisses o barro com mais gana
e fizesses um mundo mais perfeito;

(repara, por exemplo, vê o homem
que se diz ser à tua semelhança
e que mata e devasta e cria a fome,
em nome do poder e da abastança);

perdoa-me a pergunta impertinente:
existes como O Ser, ou como ente?

Domingos da Mota



Informações recolhidas em "Darwin" de Michel White & Jonh Gribbin


publicado por amigosdavenida às 14:41 | link do post | comentar | favorito

2 comentários:
De Domingos da Mota a 17 de Junho de 2009 às 01:30
Sou o autor do poema colocado neste artigo a ilustrar o texto de Paulo Trincão, como se poderá verificar no meu blogue http://fogomaduro.blogspot.com/
O seu título, "Poema da interrogação" foi retirado, bem como a respectiva epígrafe.
Na minha perspectiva, como autor do poema, e dada a carga de ironia que o atravessa, penso que a escolha não terá sido a melhor para a tese desenvolvida.
Penso também que face aos conhecimentos científicos actuais, a tese da evolução terá mais pernas para andar do que a tese da criação. Mas não quero entrar por aí, deixo isso para os cientistas, filósofos e teólogos.
O que peço é que para uma leitura cabal do poema e das suas várias possibilidades hermenêuticas, seja acrescentado pelo autor do artigo aquilo que foi truncado, ou seja, o seu título e a respectiva epígrafe.

Domingos da Mota


De Domingos da Mota a 28 de Junho de 2009 às 00:11
Caro Paulo Trincão,

Como autor do poema que ilustra o seu artigo, veja o comentário que lhe deixei no blog De Reum Natura, onde ele foi inicialmente postado, e a publicação posterior do poema no mesmo blogue, já com o título e a epígrafe, que aqui resolveu não colocar.

Domingos da Mota


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