(artigo publicado no Diário de Aveiro)
Será a arte notícia? Esta dúvida coloca-se sempre, quando começo a tentar escrever sobre este assunto. A arte é para se ver, para se sentir, para viver connosco paredes meias com uma série de objectos, mais ou menos inúteis, que vamos juntando ao longo da vida. Escrever sobre ela é um pouco como falar aos outros das aventuras de uma viagem que só nós vivemos.
Decidir mostrá-la publicamente, pode ser um acto de coragem e partilha, e só isso bastaria para louvar todas as Galarias de Arte que teimam em existir nas nossas cidades. Confesso que há alguns anos as Galerias de Arte eram por mim sentidas como espaços fechados, que me inibiam de entrar. Hoje, são habitualmente locais mais descontraídos onde toda agente pode entrar, cliente ou utente (ou serei eu que mudei?).
Ao escrever sobre este assunto gostaria de dar a conhecer, e incentivar a visitar, as Galerias de Arte como atitude cultural de um cidadão, mesmo que este sinta que não percebe nada de arte.
A “Má arte” é um “estúdio transparente onde produzem e mostram criações artísticas”. Tudo tem que ter um nome, e a escolha desta denominação tem colado um rótulo de provocação, que é comum em muita da (melhor) actividade artística contemporânea.
A “Má arte” é um “projecto situado no n.º 101 da Rua Dr.
O espaço multidisciplinar aloja estúdios, uma zona para processamento e impressão de imagem digital, áreas de exposição que permitirão realizar exposições e organizar oficinas de formação em fotografia e pintura.”
Não fique o leitor convencido que neste local pode observar os artesãos artistas pintando, fotografando, cantarolando, enfim produzindo o seu trabalho, como quem faz queijo da serra. Existe realmente uma socialização dos locais de trabalho dos criadores artísticos, que se vai abrindo à participação exterior em actividades diversas. A proximidade dos locais de produção aos de exposição e divulgação das obras faz lembrar os estúdios clássicos onde os velhos mestres realizavam e vendiam os seus trabalhos.
As potencialidades expositivas deste espaço têm sido exploradas tendo, por exemplo, sido possível ver trabalhos do fotógrafo João Leal, das séries “My own place” e “Endless”. Em “My own place”, “partindo do pressuposto que a fotografia pode ser vista como uma “máquina de medir o tempo”, as imagens servem de “leitmotifs” para a realização de buscas “fast forward” e “fast rewind” no “mecanismo” cerebral. No entanto, a medição do tempo baralha-se. As referências dadas são contraditórias. Em Roma a memória do passado impõe-se de uma forma majestática”
Esta galeria vai contribuir para juntar “algo” ao trabalho militante (histórico) que a família Sacramento tem vindo a fazer na promoção e divulgação da arte
dar um contributo importante à vida cultural da cidade e em particular desta zona porque nela já existiam as galerias Sacramento, a Kompassus, e a Bau Uau (que é muito mais do que uma excelente loja…).
È fundamental que os responsáveis da cultura apoiem estas iniciativas e que criem condições para que as iniciativas dos cidadãos floresçam e se multipliquem. Não, não estou a falar do subsídio dependência. Existem muitas outras formas de apoio que dignificam todos os participantes no processo artístico; os que produzem as obras e os que as fazem chegar às pessoas.
Não estão a ver como?
É exactamente por isso que as políticas de promoção cultural são diferentes em função das pessoas e dos programas de quem se apresenta à direcção da sua cidade.
Em silêncio descobri essa cidade no mapa
a toda a velocidade: gota
sombria. Descobri as poeiras que batiam
como peixes no sangue.
A toda a velocidade, em silêncio, no mapa -
como se descobre uma letra
de outra cor no meio das folhas,
estremecendo nos olmos, em silêncio. Gota
sombria num girassol. -
essa letra, essa cidade em silêncio,
batendo como sangue.
Helberto Helder (
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