Segunda-feira, 15 de Dezembro de 2008

 A cultura e os códigos com que se manifesta e faz registar são de diversa ordem, podendo ser de natureza material, imaterial e simbólica. Para a actualidade, existe ainda um interesse maior em tornar a cultura como um elemento ou factor de desenvolvimento económico local e regional. Este factor deverá ser capaz de gerar um novo conceito de cultura que cruze a dimensão poética, de cultura como memória e identidade colectiva, com a dimensão mais quantitativa e de cariz financeiro que responda aos desafios da competitividade e da globalização. Enfim, novos âmbitos, novos contextos e novas metodologias de intervenção de base cultural se avizinham e se preparam para que as entidades públicas e privadas se intersectem, à escala das suas capacidades, no sentido de estudarem um conjunto de novas tipologias para a intervenção cultural no território – no tecido urbano, nas áreas protegidas, na paisagem, etc.. É crescente o interesse dos municípios e do sector terciário em criarem extensões da sua acção aos domínios da cultura, gerando uma diversidade de actividades relacionadas com novas lógicas de consumo e de produção cultural. Autarcas, associações e demais grupos de interesses profissional e cívico, tais como os comerciantes e outros agentes económicos, exploram o potencial das actividades culturais para a promoção de valor económico, para a criação de emprego, para a dinamização de lógicas de participação e integração social e ainda para a valorização de tradições locais ou regionais. Cumpre às entidades públicas, e aos municípios em especial, uma outra função e que se inscreve na constante preocupação de fixar fluxos e dinâmicas populacionais em territórios ou áreas urbanas desvitalizadas, sem identidade e sem magnetes de atractividade.

O seminário “ O Futuro da Avenida – Dr. Lourenço Peixinho” recentemente promovido pelo Município de Aveiro fomentou o debate destes conceitos servindo de plataforma à participação cívica, de iniciativa municipal e resultante de uma vontade que é manifestamente a de um colectivo social ao qual me ligo.

No caso da Avenida Lourenço Peixinho, e estando eu mesma integrada nas actividades culturais da cidade pela via do cargo que desempenho como directora geral do Teatro Aveirense e ainda como elemento de um grupo de trabalho para a valorização de um acervo de Arte Contemporânea a instalar em Aveiro proveniente do Ministério da Cultura, a minha posição é a de que a Arte e os actores culturais podem ser, entre tantos outros produtores criativos, a força propulsora para a regeneração urbana desta artéria.

Conjugando o “Habitar na Avenida” com novos conceitos de residências artísticas partilhadas, em cruzamento com habitação de pequena escala – os apartamentos smart´s – e a captação de promotores do imobiliário com atitudes mais micro direccionadas para estes potenciais residentes, poderemos criar a noção e concretização de uma Avenida de Arte Contemporânea em Aveiro. Se a esta nova ocupação com novos habitantes criativos se anexar a ideia de criar um longo corredor de montras que exibam a produção artística resultante, que promovam a venda de produtos diferentes, que tragam nomes de referencia nas artes performativas em geral e ainda nos sectores da moda, do design, e da produção artística de “autor”, começaremos a ter uma lógica de produção e de consumo cultural específico que atraem e fomentam novos agentes económicos e novos fruidores / utilizadores do espaço da Avenida.

A mobilidade franca e pedonal dos utilizadores na Avenida deve ser materializada na oferta dos seguintes equipamentos:

_ passeios largos e com pavimentos “criativos” que realcem a técnica ancestral da calçada portuguesa dando o lugar a esplanadas e a palcos convidativos à representação performativa das artes;

_ acesso condicionado de carros particulares, devendo estes circular de modo controlado e na transversal ou perpendicular à Avenida;

_ utilização do Túnel inferior à Estação de Caminhos de Ferro de modo também mais criativo com intervenções localizadas de arte urbana/pública ao longo da via e no pavimento e com inserção de elementos que interpelem o quotidiano da sociedade recorrendo à comunicação em suportes multimédia;

Ainda neste sentido,

_ a ocupação do Edifício da CP com um centro coordenador de Arte Contemporânea para apoio a exposições e valorização do acervo da DGartes do Ministério da Cultura protocolado com a Câmara Municipal de Aveiro e a Universidade de Aveiro;

_ a criação de um centro documental das artes para a consulta de documentação relacionada com os vários domínios artísticos;

_ a instalação de obras artísticas resultantes de projectos experimentais realizados ao nível das novas linguagens e das artes digitais, da multimédia e afins. Estas poderiam ser instaladas em edifícios com peso estético e simbólico muito forte na Avenida, tais como: a Garagem Atlântic, o exBazar do Centro, a pastelaria Selectarte e a sede do Partido Comunista Português, a sede do Sport Club Benfica, a exCapitania do Porto de Aveiro, A Casa Paris, o café Ziz Zag, a exLivraria Vieira da Cunha, ....etc.

Esta atitude implica uma expressiva materialização de equipamentos “flagship” que se destacam pela inovação da sua ocupação e pela capacidade interventiva na vida cultural da cidade, mais do que pela interferência na sua arquitectura. A par com estas intervenções materiais e de territorialidade bem definida deverão ocorrer intervenções imateriais baseadas na realização de festivais, de exposições, de performances, etc.

Em suma, estes eventos desencadeiam e promovem a troca de ideias e experiências várias contribuindo para a regeneração urbana sendo, do meu ponto de vista, urgente a aplicação de novas estratégias de comunicação. Saliento ainda que a par com uma nova atitude de base cultural e comunicacional devemos implementar lógicas de valorização da diferenciação territorial, através de recursos endógenos afirmando novos programas de vida comunitária, de novos conteúdos sociais  e económicos capazes de reafirmar a identidade local. Estes conteúdos deverão ser associados às novas tecnologias de informação e da comunicação por forma a que a arte e a cultura gerem e motivem a adesão das populações a estes desafios.

Reforço ainda, que um Centro de Arte Contemporânea e um conjunto de residências para jovens artistas e criadores instalados ao longo deste eixo central da cidade seria um potencial elemento ou factor de competitividade e de inovação para além de ajudar a fixar novos utentes e residentes na Avenida.

Existem muitos outros programas que vão para alem do de base cultural aqui referido e que  ajudariam a fixar neste espaço outros produtores e catalizadores de vida e qualidade urbana. Os novos paradigmas da cultura funcionam em cadeia com outras dinâmicas empresariais de oferta multidisciplinar e com as quais se teriam que criar cumplicidades várias, cruzamentos e interacções fortes, que fundissem uma ligação intra urbana. Uma ligação extensível a todos os agentes locais de desenvolvimento cultural, económico, social, educativo, de bem estar, de saúde e de lazer. A união faz a força!

 

Da LUZ Nolasco Cardoso,

publicado no Jornal "O Aveiro"

Aveiro, 2 de Dezembro de 2008



publicado por JCM às 22:11 | link do post | favorito

Comentar:
De
  (moderado)
Nome

Url

Email

Guardar Dados?

Este Blog tem comentários moderados

(moderado)
Ainda não tem um Blog no SAPO? Crie já um. É grátis.

Comentário

Máximo de 4300 caracteres



Copiar caracteres

 



SOBRE CIDADES, CIDADANIA, O FUTURO E AVEIRO. UM BLOGUE EDITADO POR JOSÉ CARLOS MOTA
GRUPO FB 'PENSAR O FUTURO - AVEIRO 2020'
2013-01-04_2204.png
ADESÃO À MAILING-LIST 'PENSAR O FUTURO DE AVEIRO'

GRUPO 'PENSAR O FUTURO DE AVEIRO'
AUTOR
E-mail Gmail
Facebook1
Facebook2
Twitter
Linkedin
Google +
QUORA
JCM Works
Slideshare1
Slideshare2
Academia.Edu
links
Maio 2014
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

11
12
13
14
15
16
17

18
19
20
21
22
23
24

25
26
27
28
29
30
31


mais sobre mim
arquivos

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008