Sábado, 27 de Junho de 2009

Q. Como nasceu a ideia de criar um documentário sobre a avenida?

A cidade morre e ressuscita. São as feridas que a tornam interessante. A concretização do espaço, a arrumação lógica das necessidades, os sonhos desmesurados, a falta de ambição, todo o devir ao longo do tempo é um olhar sobre características perenes da sociedade. E que mais se pode fazer do que combater a apatia de uma sociedade, do “eu não existo” enquanto força mobilizadora.

Assim, a primeira reunião pública dos “amigos da avenida” foi o catalisador da vontade. Passado uma semana retirei da gaveta quatro folhas de rascunho de uma futura obra para guitarra sobre Aveiro e numa breve reunião surge o primeiro esboço de uma curta metragem.

O que jamais suspeitaria é que numa primeira investigação surge a história e estórias de gentes que eram donos da sua própria vida, que do desconforto perene à condição em que se encontravam, agiram, que a semelhança do presente com o passado não era apenas um facto curioso. É o agir que dá origem ao documentário. Era preciso mostrar a fantástica história de uma avenida que não é nada de mais quando comparada com tantas outras, mas é o produto da vontade férrea de um homem (Dr. Lourenço Peixinho), de uma sociedade, da cidade onde escolhi habitar. Por isso tornou-se imprescindível prestar homenagem ao cidadão, mostrar que a cidade não é pertença de ninguém. É produto de um colectivo. Para uma cidade melhor, é vital reivindicar, tornarmos consciente o nosso papel e exigir.

 

Q. Em que consiste esse documentário?

Consiste e pretende entregar a vontade de agir ao desejo de melhorar. Custa-me ver um país, uma cidade que se entrega ao fatalismo de uma magna força, poderosa e sem rosto. É a crise, é o passado, são os outros. Todos eles agentes externos, os culpados desta nossa condição.

O que achei curioso é que ao olhar para a Aveiro em 1918 encontro uma grave crise económica, um período entre guerras, uma republica pueril e turbulenta, emigração em busca de uma vida melhor e um poder local sem margens financeiras para agir. Um homem ousou e apenas trabalhou em soluções sem parar nos problemas. As crises só são graves quando são ideológicas, de resto são a força necessária para trabalhar, para ousar. Avenida é composto de camadas. Do passado nostálgico e conturbado, do presente de discussão e inquietação, constrói-se um futuro que não pretende projectar um cenário provável ou possível. O mesmo é encarado como um estimulo à imaginação, apropriando-se da linguagem artística para estimular um mundo inexistente, procurando abrir consciências, sentidos, possibilidades, potencialidades sobre o amanha.

 

Q. Quem esteve envolvido?

Este projecto está a ser realizado em parceria com uma empresa Aveirense, a Senso Comum que assumiu a produção do documentário e permitiu que as minhas ideias adquirissem forma. Se não fosse o profissionalismo, capacidade de iniciativa e dedicação desta empresa este documentário não seria possível. A investigação foi assumida pela Drª. Rosa Maria Oliveira, autora do livro “O discurso da cidade: Leituras da Av. Dr. Lourenço Peixinho”. A nível de fotografia conta com José Oliveira e João Margalha e ainda com o espólio fotográfico do Henrique Ramos e também da Imagoteca. O arquitecto Gil Moreira assina alguns trabalhos de modelação 3D e cenografia. José Geraldo e Helena Faria, da Companhia Camaleão, são os actores que nos levam a conhecer o presente e futuro no documentário. O passado foi fielmente recriado a nível de vestuário e maneirismos da época pelo Grupo Cénico e Etnográfico das Barrocas.

As entidades envolvidas até ao momento são naturalmente os “Amigos d’Avenida”, a Câmara Municipal de Aveiro e a Associação Comercial de Aveiro.

 

Q. Qual a duração?

O projecto já conta com 60 minutos idealizados, mas como ainda se encontra uma dinâmica de obra aberta a duração final dependerá dos contributos que vamos colhendo, na participação activa da população e do financiamento disponibilizado.

 

Q. Quanto custa este projecto e como é financiado?

Este projecto já foi orçamentado para uma situação ideal, ou seja quanto é que cada elemento deveria receber justamente pelo trabalho que desenvolveu e ainda se propõe a desenvolver. No entanto, e como ainda não conseguimos financiamento de nenhuma entidade externa, o que temos concretamente é o investimento de cada um, do seu tempo , dos recursos que consegue mobilizar, da responsabilidade social enquanto elemento activo na sociedade. Mas a reunião de vontades, não é suficiente e para isso temos a experiência da Senso Comum na produção audiovisual para conferir profissionalismo, impor rigor e ritmo.
Não posso deixar de fazer um paralelismo entre este projecto e a história da vontade do próprio Dr. Lourenço Peixinho que apesar das diversas contrariedades económicas e sociais persistiu. Acredito nas estórias que descobri, do poder de um colectivo. Gostaria que este documentário fosse de todos, uma partilha do mesmo espaço de reflexão e empenho, uma acção conjunta.

O documentário é ambicioso, a nível técnico, artístico e até ao momento não foi a falta de apoio financeiro que o deteve. No entanto, não posso deixar de reconhecer a importância que o financiamento tem para a continuidade de projectos deste tipo, daí aproveitar para apelar ao sentido de responsabilidade social das entidades, que apoiem a criação artística e este projecto em concreto.

 

Q. O que vão fazer com ele? Vai entrar em algum circuito comercial?

Avenida é um objecto multifacetado. Pensando numa projecção por fases que irá compreender diversas abordagens e suportes. Nesta primeira fase iniciamos já o concurso a diversas linhas de apoio e financiamento para viabilizar a sua realização, paralelamente iniciamos a sensibilização para o projecto e apresentação publica em concerto da obra musical composta desvendando já alguns momentos do vídeo, como é o caso deste sábado no Mercado Negro.

Está em fase de desenvolvimento o site do documentário onde iremos disponibilizar informação sobre o projecto, alguns vídeos inéditos e abrir à discussão e participação pública alguns temas pertinentes.

Mais para o final do ano está prevista a participação em circuitos de festivais e concursos nacionais e internacionais enquanto fazemos a apresentação do documentário em salas Portuguesas. Posteriormente está previsto lançamento de um DVD que entrará em circuito comercial.

 

Q. Que contributo pensa que pode dar para o futuro da avenida?

Que contributo poderia um músico dar? Qualquer que ele fosse era empírico e sem grande valor se falarmos em planeamento urbano ou arquitectura. Apenas posso escrever umas notas, tocar outras tantas e tentar que ambas criem um discurso. Posso realizar um documentário, posso não estacionar em segunda fila, não mandar papeis para o chão, andar de Buga no centro da cidade. Posso apenas ser um cidadão que é confrontado com um determinado espaço, que o respeita e usufrui.

 

Q. Como avalia o trabalho q tem sido desenvolvido pelo movimento amigosd’avenida?

Extraordinário! É incrível a dinamização de um grupo que não é mais do que um conjunto de cidadãos que querem agir e questionar. Têm diferenças, as expõem sem qualquer problema, discutem e arranjam soluções. Um conjunto de pessoas que procura no debate, respostas às suas inquietações e não pretendem nada mais do que exigir e usufruir da cidade que habitam.

Não somos apenas um movimento. Somos cidadãos que se interessam pela sua vida. E assim, espero que todos os outros amigos e inimigos façam soar outras vozes e ideias. As cidades silenciosas são campos vazios.



publicado por amigosdavenida às 12:45 | link do post | favorito

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