(artigo de Opinião de Daniel Oliveira)
'Apesar da má fama, o poder local foi crucial para a consolidação da democracia e para o desenvolvimento do país nas duas primeiras décadas pós-25 de Abril. As autarquias ajudaram a criar, através da proximidade, hábitos democráticos mínimos. E, onde faltava quase tudo, fizeram grande parte do trabalho de sapa: saneamento básico, infra-estruturas, erradicação de barracas, reabilitação urbana e os primeiros passos de algum, mesmo que mau, ordenamento do território. Mas, 33 anos depois, Portugal tinha obrigação de já ter ultrapassado a sua infância. Antes de mais, na relação do poder político local com as população, ainda muito baseado em redes de interesses e compadrios, nos favores e no caciquismo, em pequenas ditaduras e no horror à participação e à critica. Falta dar um enorme salto para uma segunda geração de políticas. Em vez da “obra feita”, de que a obsessão pelas rotundas é o melhor retrato, seria normal que autarcas e eleitores já estivessem a discutir outros temas. Coisas aborrecidas como a sustentabilidade económica e ambiental; a coordenação entre autarquias; políticas de habitação e realojamento que percebam que o bairro social construído hoje será o inferno de amanhã; o combate sem tréguas à ditadura do carro (os risinhos lisboetas com as ciclovias, banais em imensas cidades europeias, mostram o ponto onde ainda estamos); ordenamento do território que não seja feito à medida de cada interesse particular; formas de gestão transparentes; ou políticas de emprego que não se limitem à construção de parques industriais que muitas vezes não são mais do que elefantes brancos sem futuro e à contratação desenfreada de funcionários. Do Estado Central, para começar, precisa-se de uma coisa: a alteração imediata de uma lei de financiamento que promove a construção e a corrupção. Sem autarcas de segunda geração o país, todo ele, estará condenado. Infelizmente, chegam os dedos de uma mão para os contar. E não se vislumbra, em nenhum partido, a vontade de arriscar. Uns querem garantir a sua rede local de influências, outros estão preocupados com a sua própria bolsa de emprego, outros olham para estas eleições como mais um momento de afirmação nacional. Mesmo a abertura das eleições a listas independentes revelou-se, na esmagadora maioría dos casos, uma enorme decepção. Veremos se, daqui a quatro anos, quando, quando por força da lei, 188 autarcas não recandidatarem, alguma coisa muda. Por agora, nada de novo. Assim, o apelo ao voto que faço é este mesmo: se têm um dinossauro na vossa câmara, votem contra ele. Se têm um populista, votem contra ele. Se têm um corrupto, votem contra ele. Se têm um cacique, votem contra ele. Se diz que quem o ataca está a atacar a terra, votem contra ele. Se ataca quem lá está mas não se deu ao trabalho de fazer um programa digno desse nome, votem contra ele. Se faz apenas declarações ideológicas mas nunca se interessou pelos assuntos locais, votem contra ele. Se não presta contas do que fez, votem contra ele. Se só promete mais obra, votem contra ele. Se guardou todas as inaugurações para os últimos três meses, votem contra ele. Se faz ou vai fazer dos serviços autárquicos um centro de emprego para companheiros ou camaradas de partido, votem contra ele. Se faz muito e não pensa no que faz, votem contra ele. Se diz que é um homem de acção e não gosta de planear, votem contra ele. Se planeia e não faz o que põe no papel, votem contra ele. Se aparece ao lado de empreiteiros, votem contra ele. Se enriqueceu à conta dos dinheiros públicos, votem contra ele. Se conhece os problemas e, não tendo soluções milagrosas, apresenta caminhos em que acreditam, votem nele. Se não promete “uma capela maior do que uma catedral” mas tem umas ideias plausíveis de como melhorar a qualidade de vida no vosso concelho, votem nele. Se é honesto e inventivo, trabalhador e empenhado, votem nele. Se trata o vosso dinheiro com cuidado, votem nele. Se se preocupou em escolher uma boa equipa e se não traz atrás de si uma trupe de boys inqualificados, votem nele. Se em vez de comprar o vosso apoio ouve as populações, votem nele. Se vos mostra com toda a transparência o que se passa na câmara e não decide tudo nos corredores e nos gabinetes, votem nele. Se aceita que a oposição e a imprensa local livre fazem parte da vida democrática, votem nele. Se trata com o mesmo respeito os miseráveis e os notáveis, votem nele. Se nenhum deles for assim, votem no menos mau. Mas votem. Sabendo, no entanto, que a política local também é política. Como no país, há formas diferentes de olhar para o mesmo problema e diferentes formas de o tentar resolver. Quando se tratava apenas de construir esgotos e alcatroar estradas, fará pouca diferença as convicções de cada um. Quando começamos a tratar do resto, é da mais pura das políticas que estamos a falar. Da que interessa. Como não sou ninguém para dar conselhos aos outros, o que eu quero dizer afinal é que é assim mesmo que votarei'.
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