Quarta-feira, 21 de Outubro de 2009

(Artigo de opinião de Carlos Naia, publicado no Diário de Aveiro)

IMPLOSÃO DO NOVO ESTÁDIO  DE AVEIRO ? -  “OS DEUSES DEVEM ANDAR LOUCOS” …

 

       'Há cinco anos tudo eram rosas e cores garridas. Para servir o Euro 2004, a Câmara liderada por Alberto Souto inaugurou um novo e mais que controverso estádio, lá para as bandas de Taboeira  e  com a maioria dos expropriados a chorar a perda dos seus terrenos expropriados  por” tuta e meia” . A obra nasceu, do «Euro» apenas se viram dois jogos e depois começaram os pesadelos, traduzidos em custos de construção e manutenção incomportáveis para a edilidade aveirense.

        Com a Câmara  a herdar um fardo pesadíssimo, ficando muito endividada com os custos da obra e o pagamento de juros astronómicos à banca, em consequência dos empréstimos contraídos,  muitos dos beira-marenses e não só defendem que a construção redundou  também em prejuízos de monta para o clube com um significativo  afastamento de espectadores  amantes  do velho «Mário Duarte» .

       Tudo bem, ou melhor, mal. O novo  Estádio Municipal, com as cores exteriores cada vez mais esbatidas pelo sol e salinidade  e as cadeiras interiores com inexpressiva  utilização, resultado em larga medida, também, da queda (prolongada)  do Beira Mar na Liga de Honra, continua a haver  um mar de problemas e contestação à mistura.  Poucos serão os que «morrem de amores», não pela obra em si mas, essencialmente, pelo seu afastamento  do centro citadino.

       Se o estádio continua a acumular prejuízos  mês após mês, é inquestionável.  Todavia, não basta apontar apenas as causas, mas acima de tudo, tentar encontrar saídas que possam eventualmente  trazer melhorias palpáveis  e que passam, nomeadamente, pela sua rentabilização das mais variadas formas e feitios. Como a realização de espectáculos e outros eventos que levem  gente ao estádio  e  façam entrar alguns euros nos cofres camarários em vez de crónicos prejuízos.

       A verdade é que,  até hoje, e ao contrário do que acontece noutros estádios do país,  não houve   um único evento extra-desportivo  no estádio e, quanto ao conjunto de infraestruturas complementares de que tanto se propalou na altura da sua inauguração e já depois disso, para a desejável e imprescindível dinamização e rentabilidade,  até agora nem uma só luz se vê ao fundo do túnel.

     Obviamente que, assim, não se vai a lado nenhum. O que não estávamos à espera, porém , e certamente a esmagadora maioria dos aveirenses é que um dirigente político social democrata e recentemente eleito, por Aveiro,  deputado à Assembleia da República (Ulisses Pereira) , viesse  admitir, esta semana, no programa desportivo  «Bola Branca», da Rádio Renascença e num quadro de “hipóteses a ponderar”   uma  - imagine-se, meus senhores - ! , … “IMPLOSÃO”  do Estádio Municipal ou, menos gravosamente,  a sua substituição, - se a malfadada  situação do défice financeiro  subsistir eternamente. Mas  substituir o quê, porquê e de que forma ?

     Mais do que falar  desabridamente  de “implosões”  mesmo, porventura, num contexto  de alguma ironia sem jeito nem graça, já agora,  e mais seriamente, seria  bom  que  aproveitasse a oportunidade para dissecar sobre a real dimensão do trabalho e eficácia de uma empresa criada e bem paga  pela Câmara para  gerir a dinamização e rentabilização daquela infraestrutura desportiva e, até hoje e ao que se saiba, pouco terá feito de importante. 

          Se é inquestionável que a autarquia não poderá protelar indefinidamente o défice mensal de 50 mil euros com o estádio utilizado exclusivamente pelo Beira Mar, a terapêutica para tal maleita não deverá começar exactamente por aí, ou seja, pela reavalição do trabalho produzido, eficácia das acções, competências e encargos  vultosos  com a  manutenção da EMA (Empresa Municipal de Aveiro) ? Não residirá aí uma grossa fatia  das razões  justificativas do défice acumulado  que onera os cofres do município ?

         Insistindo um pouco mais, seria de todo em todo benéfico que o executivo do reeleito presidente  Élio Maia informasse, logo que possível, os aveirenses, em que pé está o previsto conjunto de infraestruturas periféricas ao Estádio Municipal de Aveiro Mário Duarte ? É que já lá vão meia dúzia de anos desde o “pontapé de saída” e não há meio de o “povo gritar vitória”. Nem uma só obra foi erguida e  assim continuar, não há gestão que resista e obra que não venha abaixo, mesmo sem métodos “implosivos” . Bastará uma  “nortada”  por certo …

      Diga-se aos aveirenses quanto custou até agora a existência da EMA, quanto se despendeu em ordenados chorudos a gestores que por lá têm passado e qual a real dimensão e mérito do trabalho realizado no âmbito da criação e  objectivos delineados em matéria de complementaridades de uma obra polémica  e extremamente onerosa  para a autarquia aveirense, onde se investiram mais de 10 milhões de contos e para a qual o Estado entrou com uma comparticipação de apenas 25 por cento desse dinheiro. Que a Câmara não tinha e teve de pedir emprestado à banca, herdando uma dívida que irá condicionar a sua acção, em matéria de investimentos,  durante muito tempo.

      Mas, por favor, não nos venham dizer que o estádio foi mal concebido esteticamente, que não é funcional, que está «longe para burro” e que, em função dos défices acumulados  talvez uma qualquer “implosão” que o fizesse cair por terra num simples abrir e fechar de olhos fosse um cenário aceitável.  Isso é charlatear, é brincar com coisas sérias de mais e que, acima de tudo merecem profunda reflexão,  projectos inovadores  e complementares   e eventos -  muitos eventos  que arrastem multidões  até  Taboeira,  já que em matéria de “chuto na bola” a crise de afluências  é inquestionável e um mal nacional e não apenas de Aveiro !

      No meio de todo este imbróglio, o comentário que nos merece toda esta confusão e declarações disparatadas é que «os deuses devem andar loucos» neste país…'



publicado por amigosdavenida às 00:15 | link do post | comentar | favorito

1 comentário:
De Jorge Greno a 21 de Outubro de 2009 às 10:22
Pequenas observações ao que escreveu Carlos Naia .
No estádio foi realizado por uma promotora privada um concerto - Marisa e Gilberto Gil - com um êxito interessante para o tipo de espectáculo em questão.
A realização de mais espectáculos poderia por em causa a conservação do relvado. Talvez por não se terem realizado mais, o relvado ainda seja o original, ao contrário da maior parte dos restantes estádios do Euro 2004.
A realização de um concerto ou evento num dos grandes estádios - Dragão, Luz e Alvalade, já contempla, no seu orçamento , a substituição do relvado. Será que Aveiro poderá atrair um número suficiente de pessoas para realizar este tipo de espectáculos?
Por outro lado há um esquecimento de outros eventos que aportaram receita e ocupação ao Estádio Municipal de Aveiro, tais como jogos da Selecção Nacional (lembro-me de 2), Euro Sub-21 2006 e, mais recentemente, a final da Supertaça .
A envolvente do estádio foi igualmente palco de outros eventos que geraram receita, como os festivais de tunning e o próprio estádio foi palco de diversos eventos no seu interior. E também a realização da Recepção ao Caloiro e do Enterro do Ano junto ao estádio, se não trazem receita, pelo menos reduzem outro tipo de problemas que aconteciam quando os eventos se realizavam dentro da cidade.
Evidentemente que tudo isto é insuficiente de um ponto de vista económico-financeiro. Mas se o estádio estivesse completo (com os campos de treinos a funcionar), se as suas salas interiores permitissem outro tipo de ocupações (difícil ou impossível nalguns casos devido a constrangimentos e erros do próprio projecto) e se no chamado Parque Desportivo de Aveiro já estivessem a funcionar outros equipamentos, naturalmente que toda esta zona receberia mais visitantes, que poderiam proporcionar mais receitas, etc. etc.
Foi o projecto inicial - Estádio e PDA - demasiado ambicioso para Aveiro?
Será possível redesenhá-lo e readaptá-lo, em altura de profunda crise económica, para que possa nascer na zona uma nova centralidade?
Penso que o novo executivo se deve debruçar seriamente sobre estas questões e encontrar rapidamente soluções. sob pena de, daqui por 4 anos estarmos a discutir o mesmo e o estádio estar ainda mais degradado.


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