A ponte que nos divide (artigo de opinião)
Podia falar-vos dos inúmeros problemas de Aveiro. Podia falar-vos do abandono, da degradação, do mísero estado de muitos equipamentos públicos da nossa cidade. Porém, não o vou fazer, porque isso, isso está à vista de todos.
Podia ainda falar-vos daquilo que falta no meu bairro, daquilo que falta fazer na minha rua ou do que eu queria que se fizesse à porta de minha casa. Porém, não o vou fazer, porque isso, isso seria demasiado egoísta.
Aquilo de que vos venho falar é daquilo que quero que não se faça na minha cidade. Eu não quero que se trespasse o coração de Aveiro com uma lança de betão. Eu não quero. Muita gente não quer. Porque não consigo compreender a ideia de agredir o canal central da Ria de Aveiro, na sua principal montra, entre a ponte-praça e o Rossio, com uma ponte, seja ela qual for.
Sou completamente a favor do progresso, desde que este não se faça à custa da identidade da nossa cidade. Porque é disso que estamos a falar. A imagem-chave que os aveirenses e os que visitam Aveiro guardam no seu imaginário pessoal é a incomparável beleza do espelho de água, mesmo à entrada da cidade, com os seus edifícios quase que a descansar sobre a serenidade do canal, que por sua vez os reflecte, misturando-os com o azul do céu.
São cenários idílicos com que a Natureza brindou Aveiro e que hoje em dia, em países civilizados, se consideram riquezas inestimáveis. Gostava que também fosse assim no meu país, na minha cidade. Ao invés de valorizarmos o que temos de mais único, queremos copiar obras de fachada de outros lugares. Mas está enganado quem pensa que alguém visita Aveiro para ver pontes, edifícios ou monumentos. O que as pessoas realmente apreciam é a forma como a cidade vive em harmonia com os seus canais: os varais de roupa nos Botirões ou em S. Roque, as pequenas casas-abrigo perdidas no meio das marinhas à sombra de árvores solitárias, a tranquilidade de um pôr-do-sol avermelhado na Rua da Pêga e tantos outros detalhes que não têm preço.
Somos uma cidade que tem uma relação íntima ancestral com a água, que deve ser respeitada e levada em conta pelos técnicos, que muitas vezes, desenham os seus traços e fazem as suas contas sem saírem do gabinete, sem sentirem verdadeiramente o pulsar e o viver do lugar.
E as pessoas que valorizam a identidade desta cidade sabem que a nossa maior riqueza é a Ria, que deve ser protegida, embelezada e acarinhada. Nem sempre assim foi, é certo. Tempos houve em que não passava de um estorvo pestilento a atrapalhar a circulação e o progresso. Mas, felizmente, hoje a cidade começa a corresponder ao abraço que a Ria sempre lhe deu.
O vil betão já nos bloqueou as vistas de grande parte dos nossos espelhos de água, não vamos permitir que o façam mais. Há quem queira fazer crer que agora é tarde, que nada há a fazer. Mas agora é o tempo. É sempre tempo de lutar pelo que acreditamos. Porque as gerações passadas e futuras não nos perdoariam se não o fizéssemos. Porque ainda é tempo do Sr. Presidente ouvir a cidade e ter o bom senso e a digna atitude de recuar.
Porque Aveiro é nossa e há-de ser. Aveiro é nossa até morrer.
Gustavo Vasconcelos
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